Atividade reúne em Florianópolis representantes dos coletivos de Combate ao Racismo, Juventude, LGBTQIA+ e Trabalhadores com Deficiência para fortalecer a organização e incorporar suas pautas à ação sindical
A diversidade da classe trabalhadora e o desafio de transformar essa diversidade em organização e ação sindical marcaram o primeiro dia do Encontro Estadual dos Coletivos da CUT-SC, realizado nesta sexta-feira (21), na Escola Sindical Sul, em Florianópolis. A atividade reúne integrantes dos coletivos de Combate ao Racismo, Juventude, LGBTQIA+ e Trabalhadores com Deficiência da Central.
Na abertura, a presidenta da CUT-SC, Anna Julia Rodrigues, destacou a importância de fortalecer a organização dos coletivos e ampliar sua participação na construção das ações da Central. Para ela, organizar esses espaços é fundamental para que as diferentes realidades vividas pela classe trabalhadora estejam presentes nas pautas e nas lutas desenvolvidas pela CUT em Santa Catarina.
O secretário-geral da CUT-SC, Rogério Manoel Corrêa, também ressaltou o papel estratégico dos coletivos. Ele lembrou que questões como racismo, capacitismo, discriminação e os desafios enfrentados pela juventude e pela população LGBTQIA+ atravessam a vida dos trabalhadores e trabalhadoras e, por isso, precisam fazer parte da atuação sindical.
Desigualdades persistem no mercado de trabalho
A primeira mesa, “Desigualdades no mercado de trabalho e possibilidades da ação sindical”, foi conduzida pela supervisora do Escritório Regional do DIEESE em Santa Catarina, Crystiane Peres, que apresentou dados sobre desigualdades de gênero, raça, geração, orientação sexual e deficiência no mundo do trabalho.
Os números mostram que, apesar da melhora de alguns indicadores sociais e do mercado de trabalho, as desigualdades históricas continuam profundas e, em alguns casos, estão aumentando.
Em 2025, por exemplo, o rendimento médio real cresceu para todos os grupos analisados nacionalmente, mas de maneira muito desigual. Enquanto a renda dos homens não negros avançou 6,9%, a das mulheres negras cresceu apenas 3,7%. Entre as mulheres não negras, o crescimento foi de 4,8%, e entre os homens negros, de 4,1%.
A diferença fica ainda mais evidente quando se compara o rendimento dos dois grupos que ocupam os extremos dessa desigualdade. Em 2025, as mulheres negras recebiam, em média, R$ 2.184 mensais, enquanto os homens não negros recebiam R$ 5.172. Na média nacional, o rendimento das mulheres negras correspondia a apenas 42% do recebido pelos homens não negros.
Em Santa Catarina, os dados também revelam o aprofundamento das diferenças raciais. Entre o quarto trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, o rendimento médio cresceu 7,6%. Para as pessoas brancas, porém, o avanço foi de 8,3%, enquanto entre as pessoas pretas foi de 4,4% e entre as pardas, de apenas 2,7%. Em 2025, pessoas pretas recebiam, em média, 68,3% do rendimento das pessoas brancas no estado.
Crystiane chamou a atenção para o fato de que o crescimento da renda, quando ocorre em ritmos tão diferentes, pode ampliar a distância entre os grupos. Os dados reforçam a necessidade de olhar para as desigualdades de forma interligada e também de incorporar seu enfrentamento às negociações coletivas e à ação cotidiana dos sindicatos.
Combater o racismo exige ação
Na sequência, a historiadora Heliana Hemetério, conselheira titular do Conselho Nacional de Saúde, integrante da Rede de Mulheres Negras, do Coletivo de Lésbicas Negras e articuladora da Rede Nacional de Lésbicas e Bissexuais Negras Feministas Autônomas – CANDACES, conduziu a mesa sobre os desafios do combate ao racismo.
Heliana abordou as diferentes formas pelas quais o racismo atravessa a sociedade brasileira, desde a violência até situações naturalizadas no cotidiano, como piadas, apelidos e outras práticas discriminatórias. “É um assunto pesado e complexo, mas precisamos debater. Nunca se mataram tantos negros”, afirmou.
A convidada também defendeu as políticas de cotas como instrumento de enfrentamento às desigualdades históricas. “As cotas não são um favor, são uma reparação histórica que este país deve aos negros”, destacou.
Uma das provocações centrais deixadas por Heliana foi direcionada especialmente às pessoas brancas: mais do que se declarar antirracista, é necessário transformar esse posicionamento em atitudes concretas. A reflexão proposta foi sobre o que cada pessoa efetivamente tem feito para contribuir com a luta antirracista.
Inclusão começa pelo pertencimento
O último debate da tarde tratou dos desafios da inclusão dos trabalhadores e trabalhadoras com deficiência e do combate ao capacitismo, com Karem Resende, coordenadora nacional e estadual do Coletivo dos Trabalhadores e Trabalhadoras com Deficiência da CUT e suplente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade).
Karem compartilhou sua própria trajetória. Ela perdeu a visão há 17 anos, após um acidente de trabalho, e relatou a importância que seu sindicato, o Sintraseb, teve para sua inclusão e para que voltasse a se reconhecer como uma pessoa capaz de contribuir e ocupar espaços.
Para Karem, não basta convidar pessoas com deficiência para participar. É necessário criar previamente as condições para que elas possam estar nos espaços com autonomia e pertencimento. Isso passa por garantir acessibilidade física, comunicacional e nos materiais produzidos pelas entidades.
Ela também chamou atenção para a necessidade de enxergar a pessoa para além da deficiência, reconhecendo seus conhecimentos, experiências e capacidades.
Os dados apresentados pelo DIEESE durante a primeira mesa reforçaram o tamanho desse desafio. Em 2025, as pessoas com deficiência ocupavam cerca de 759 mil postos de trabalho formal no Brasil, apenas 1,27% do total dos vínculos formais. Em Santa Catarina, somente 2,7% das negociações coletivas analisadas em levantamento do DIEESE realizado em 2023 possuíam cláusulas relacionadas à contratação de pessoas com deficiência.
Karem também destacou a produção realizada pela CUT para subsidiar a atuação sindical, com quatro cadernos que abordam temas como a Lei de Cotas, a organização do Coletivo de Trabalhadores e Trabalhadoras com Deficiência, o direito ao trabalho e conceitos e terminologias relacionados às pessoas com deficiência.
Cultura e luta encerram primeiro dia
A programação desta sexta-feira encerrou com a apresentação da peça teatral “Esperançar 5.0 – URL Não Encontrada”, produção do Grupo Madalenas na Luta / Escola de Teatro Político (EsTePo-SC).
O Encontro dos Coletivos continua neste sábado (22), com debates sobre os desafios da população LGBTQIA+ e da juventude. A programação também prevê trabalhos em grupo, balanço das ações desenvolvidas pelos coletivos e a construção de um plano de ação, que será apresentado e debatido em plenário antes do encerramento.
Mais do que reunir diferentes pautas, o encontro busca fortalecer a compreensão de que racismo, capacitismo, LGBTfobia, desigualdades de gênero e geração também são questões da classe trabalhadora. Incorporar essas lutas à organização sindical é parte do desafio de construir um movimento sindical capaz de representar toda a diversidade de quem vive do trabalho.