Segundo dia aprofundou os desafios da população LGBTQIA+ e da juventude e terminou com a definição de ações para ampliar a atuação dos coletivos dentro da CUT e dos sindicatos
Depois de dois dias de debates, formação e construção coletiva, o Encontro Estadual dos Coletivos da CUT-SC encerrou neste sábado (22), na Escola Sindical Sul, em Florianópolis, com uma série de encaminhamentos para fortalecer a atuação dos coletivos de Combate ao Racismo, Juventude, LGBTQIA+ e Trabalhadores e Trabalhadoras com Deficiência.
Se o primeiro dia foi marcado pelos debates sobre as desigualdades no mercado de trabalho, a luta antirracista e o combate ao capacitismo, o sábado aprofundou os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ e pelas diferentes juventudes. Na segunda parte do dia, os participantes se dividiram em grupos para avaliar a atuação dos coletivos e construir propostas que deverão orientar as próximas ações.
Sem dados, demandas permanecem invisíveis
A primeira mesa do sábado discutiu os desafios da população LGBTQIA+, com a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Dayana Brunetto, pesquisadora dos Estudos de Gênero, Feminismos, Sexualidade e Educação e articuladora nacional da Rede Nacional de Ativistas e Pesquisadoras Lésbicas e Bissexuais – Rede LésBi Brasil; e Léo Ribas, conselheira nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e articuladora nacional da Liga Brasileira de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (LBL).
Um dos principais pontos do debate foi a ausência de informações capazes de retratar de forma ampla quem é e como vive a população LGBTQIA+ brasileira. As convidadas alertaram que a falta de dados também produz invisibilidade: quando uma população não aparece nas estatísticas, suas necessidades têm mais dificuldade de se transformar em demandas e, consequentemente, em políticas públicas eficientes.
Como exemplo da necessidade de produzir essas informações, Dayana e Léo apresentaram a experiência do LesboCenso Nacional. Segundo elas, em apenas 24 horas, mais de 10 mil pessoas responderam ao levantamento. Além do questionário, foram realizadas 130 entrevistas em diferentes regiões do Brasil para aprofundar os dados coletados. “Em 24 horas tivemos mais de 10 mil respostas, ou seja, as pessoas querem dizer quem são”, destacaram durante o debate.
Outro dado apresentado foi o registro de 122 tentativas de lesbocídio no Brasil em 2022, evidenciando a violência enfrentada por mulheres lésbicas. As convidadas também anunciaram que a segunda edição do LesboCenso Nacional está prevista para ser lançada em março de 2027.
A discussão reforçou a importância de o próprio movimento sindical conhecer melhor quem representa, produzindo informações que permitam identificar as diferentes realidades presentes na base dos sindicatos.
Juventude existe no movimento sindical e quer ocupar espaços
Na sequência, o presidente do Conselho Estadual da Juventude (CONJUVE/SC), Kevin Gonçalves Pacheco, conduziu o debate sobre os desafios das juventudes. Kevin chamou atenção para a necessidade de falar em “juventudes”, no plural. A realidade de um jovem trabalhador do campo, por exemplo, é diferente daquela vivenciada por quem está nos centros urbanos. Essas diferenças precisam ser consideradas na elaboração das políticas públicas.
Segundo ele, um dos principais problemas enfrentados é justamente a falta de escuta. Mesmo nos espaços institucionais destinados à participação das juventudes, os jovens ainda encontram dificuldades para que suas demandas sejam efetivamente consideradas. Para Kevin, avançar nesse cenário passa necessariamente pela organização política da juventude e pela ampliação de sua participação nos espaços de decisão.
O debate também provocou uma reflexão sobre a presença dos jovens dentro do próprio movimento sindical. Geici, integrante do Coletivo de Juventude, destacou que é preciso abandonar a ideia de que os jovens não estão nos sindicatos “Temos que tirar do nosso vocabulário que não tem jovens no movimento sindical. Jovens têm, é preciso dar espaço para eles ocuparem”, afirmou.
Coletivos constroem plano de ação
Depois dos debates, os participantes se dividiram por coletivos para fazer um balanço das ações desenvolvidas, identificar desafios e construir propostas para os próximos períodos. Entre os encaminhamentos gerais, ficou definida a realização de um novo encontro em março de 2027, como preparação para o Congresso da CUT, incorporando também o Coletivo de Mulheres.
Outra proposta é estimular os sindicatos CUTistas a realizarem pesquisas sobre o perfil de seus sindicalizados, com recortes de juventude, população LGBTQIA+, pessoas com deficiência e população negra. A iniciativa busca enfrentar justamente uma das questões que atravessou os debates dos dois dias: para representar e organizar toda a diversidade da classe trabalhadora, é necessário primeiro conhecê-la.
O Coletivo LGBTQIA+ definiu como um dos encaminhamentos ampliar sua organização territorial, buscando construir uma representação do coletivo em cada Regional da CUT-SC.
O Coletivo dos Trabalhadores e Trabalhadoras com Deficiência colocou a acessibilidade da própria comunicação sindical entre suas prioridades, defendendo que as publicações e materiais produzidos sejam disponibilizados em formatos acessíveis para todas as pessoas.
Combate ao racismo deve chegar às negociações coletivas e aos locais de trabalho
O Coletivo de Combate ao Racismo definiu um conjunto de iniciativas que busca transformar o debate antirracista em instrumentos concretos de atuação sindical.
Uma das propostas é realizar um levantamento das cláusulas antirracistas existentes em acordos e convenções coletivas, identificando direitos já conquistados e possibilidades de ampliar garantias relacionadas ao combate à discriminação e à promoção da igualdade racial.
Também será trabalhada a construção de um protocolo de defesa e enfrentamento ao racismo, que deverá orientar trabalhadores e trabalhadoras vítimas de discriminação sobre como identificar e registrar uma ocorrência, onde buscar apoio e quais órgãos e instituições podem ser acionados.
Outro eixo será o desenvolvimento permanente de ações de letramento racial, incluindo a produção de cartilha, materiais para as redes sociais, palestras, debates, rodas de conversa, atividades formativas e orientações sobre prevenção e denúncia de situações de racismo.
Diante do processo eleitoral, o coletivo também propôs construir uma Carta-Compromisso para candidatos e candidatas, com compromissos relacionados ao combate ao racismo, à igualdade racial, aos direitos da população negra e à implementação de políticas públicas de enfrentamento à discriminação. A intenção é buscar a adesão pública às propostas e, posteriormente, acompanhar e cobrar os compromissos assumidos.
Mais jovens participando e decidindo
O Coletivo de Juventude também saiu do encontro com uma agenda de organização. Entre as propostas está a elaboração de uma Carta-Compromisso e de um guia sindical com orientações para ajudar os sindicatos a se aproximarem dos jovens trabalhadores e trabalhadoras.
O coletivo pretende ainda realizar uma nova etapa da Formação de Alicerce para a Juventude, manter reuniões mensais de forma virtual e promover uma atividade presencial nos dias 20 e 21 de novembro, na Colônia de Férias dos Metalúrgicos de Joinville.
Diversidade para fortalecer a luta sindical
Os encaminhamentos construídos ao final dos dois dias reforçam uma das principais propostas do encontro: fazer com que os coletivos estejam cada vez mais integrados à organização e à ação cotidiana da CUT-SC e de seus sindicatos.
Mais do que espaços destinados a segmentos específicos, os coletivos têm o desafio de contribuir para que o movimento sindical reconheça a diversidade existente dentro da própria classe trabalhadora e transforme essas demandas em organização, formação, negociação coletiva e luta por políticas públicas.
O encontro encerrou reafirmando que combater o racismo, a LGBTfobia e o capacitismo, ampliar os espaços ocupados pela juventude e garantir igualdade e respeito à diversidade são partes inseparáveis da luta por direitos da classe trabalhadora.