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Artigo

A pandemia na história das exclusões no Brasil e o que isso tem a ver com os trabalhadores e trabalhadoras

Publicado: 28 Abril, 2020 - 00h00 | Última modificação: 28 Abril, 2020 - 10h53

Embora a humanidade já tenha passado por pandemias e ameaças biológicas, pelas caraterísticas da sociedade atual é possível pensar que nenhuma delas teve o impacto que o COVID 19 nos apresenta. O estágio do capitalismo no qual nos encontramos, isso desde sua origem e primeira fase no século XV, possui caraterísticas, não necessariamente inéditas, mas sim aceleradas, que faz de um vírus, embora uma realidade biológica, sobretudo uma questão política, econômica e social, um barco onde estão capitalistas, classe trabalhadora, pequena burguesia, e toda a diversidade origem e resultado da história.

Sendo que a hiper-conectividade de pessoas é uma das caraterísticas da atualidade, a circulação de informação científica (e por vezes nem tão cientifica) nos obriga a falar do comportamento das moléculas no ar, de vacinas e antídotos, de imunidade e transmissão. Ou seja, termos até agora reservados para infectologistas fazem parte das nossas conversas cotidianas. Sim, o vírus é uma realidade biológica alheia até mesmo à ideia de território nacional; mas cabe a nós analisar e entender como ele afeta diferenciadamente as pessoas dependendo o lugar que ocupam no sistema capitalista. O vírus, por si só não faz distinção entre os corpos onde pousa, mas a desigualdade social e econômica fará por ele a distinção das consequências da sua presença.

O Covid 19 se multiplica assustadoramente em certas condições sociais, sendo que a mais renomada é da aglomeração, que por recomendação da ciência deve ser evitada. Na coletânea de artigos chamada “Sobre os Sindicatos”, Lênin resume as condições de vida dos novos proletários que saiam do campo para trabalhar na cidade na Europa da primeira revolução industrial:
“junto aos luxuosos palácios dos ricos (ou nos arrabaldes das cidades) levantaram-se os tugúrios dos operários obrigados a viver em porões ou amontoados em apartamentos húmidos e frios, e às vezes simplesmente choças perto das novas empresas industriais”.

A descrição feita por Lênin, não é radicalmente diferente de uma parcela importante da nossa classe trabalhadora atual. O modo de vida de aglomeração foi pautado desde o início do capitalismo para as famílias trabalhadoras.

Nas maiores cidades brasileiras; essas aglomerações têm também outras explicações na história, são aglomerações maioritariamente negras, herança da escravidão, onde a presença do Estado é pautada pelas forças repressivas. E é justamente essa ausência de políticas de bem-estar social mais contundentes, que faz vital os estreitos laços de comunidade que a proximidade física permite. Diante disso, algumas perguntas: é possível a distância socialmente recomendada (1.5mts) quando a vida na sua concretude só é possível graças à vizinha, ao primo, ao puxadinho, ao cômodo da casa que sempre permite mais um? É possível recomendar um distanciamento físico quando o capitalismo e a história de exclusão nos fizeram viver uns do lado, encima, abaixo dos outros?

As quatro piores pandemias da história da humanidade deram-se no trecho histórico compreendido desde o nascimento das cidades, como centros de aglomeração e circulação de pessoas, até nossos dias. E mesmo que a classe trabalhadora se diversificou e uma camada importante consegue viver por fora de cenários como o descrito por Lênin, as pandemias encontram no modelo de sociedade configurado pelo capitalismo, no que diz ás formas de produção e a organização do espaço, um território fértil para nascer e para se espalhar. Mas na desigualdade própria da sociedade atual o Covid 19 é uma realidade onde como afirma Judith Butler: “alguns humanos afirmaram seu direito a viver”.

A questão fundamental não parece ser o contágio, mesmo que qualquer pessoa doente pode morrer. Mas a diversificação e mesmo ampliação do inicial grupo de risco nas nossas sociedades por motivos históricos, onde, por exemplo, a tuberculose ainda é uma realidade nas camadas mais pobres, isso sem distinção de idade, o que coloca as crianças e a juventude tuberculosa no grupo de risco do COVID 19. Somam-se ao grupo de risco, todas as pessoas que moram em bairros periféricos com problemas de saneamento, assim como a todas as pessoas que se deslocam em veículos de transporte público lotado. Sim, ser pobre no Brasil é de alguma maneira estar no grupo de risco. Porque o acúmulo de tantos direitos negados, pode tirar dos mais pobres até mesmo o direito a viver.

Este texto se baseia então na ideia de que o Novo Coronavírus, como qualquer outra realidade biológica se molda a formas sociais já existentes, reforçando algumas e potencializando outras. Como sabemos uma sociedade é definida pelas suas formas de produção, e o mundo está vivenciando uma mudança grande com a chegada da indústria 4.0, ou 4ª Revolução Industrial, que já vinha nos impondo alterações nas formas de vida, e que o Covid 19 veio a intensificar. Alterações com mecanismos de opressão mais sofisticados, mas que só aprofundam as diferenças sociais já existentes.

Para uma parcela da classe trabalhadora tal vez os seus empregadores não tinham cogitado o trabalho remoto, com a necessidade de isolamento social, trabalhar virtualmente virou uma possibilidade real, tanto para o trabalhador quanto para o empregador. O Covid empurrou um movimento até então “tímido” de trabalho remoto. É possível que milhares de esses trabalhos não vão voltar à normalidade uma vez superada a pandemia. E milhares de trabalhadores ficarão em casas, tentando produzir no meio das obrigações domésticas, isto afetará maioritariamente às mulheres que já cumpriam dupla jornada de trabalho, pois a mulher continua muito mais vinculada à casa, ao cuidado e a família, do que o homem.

Por outro lado, está reacomodação de milhares de trabalhadores faz da jornada laboral das oito horas agora uma nova jornada imprecisa no cálculo de horas trabalhadas. A relação até agora existente de tempo e salário, será cada vez mais dúbia. Precarizando a vida do trabalhador e da trabalhadora, não só as suas condições de trabalho, mas no seu projeto de vida, na possibilidade de sonhar com novos objetivos, assim como precarizando sua realidade doméstica e familiar também.

Outra prática da 4ª Revolução Industrial que o Covid 19 veio a potenciar é o uso de plataformas virtuais de acesso a bens e serviços, com algumas consequências. Por um lado, cada plataforma fica com informações precisas dos usuários, informações que são comercializadas por grandes empresas de Big Data. Por outro lado, temos trabalhadores como entregadores e motoristas, que prestando serviços para estas plataformas sem nenhum vínculo que garanta seus direitos como trabalhadores.
Para entender as consequências de estas duas situações no campo da luta pelos direitos, será necessário voltar a Lênin ainda falando da chegada dos trabalhadores do campo à cidade:

“A exploração individual na pequena parcela de terra, desassociava os operários e fazia com que cada um deles se aferrasse a seus interesses particulares, diferentes dos interesses dos seus companheiros e, desse modo dificultava sua união... o trabalho conjunto de centenas habitua por si só os operários a examinarem coletivamente suas necessidades e a agirem em combinação, tornando patente a identidade de situação e interesses de toda a massa operária”.

Sendo assim, frente a um modo de produção como o apresentado e ainda acelerado pela chegada do Coronavírus, se apresenta uma classe trabalhadora produzindo desde seu espaço doméstico, ou andando pelas ruas transportando pessoas, comidas e mercadorias, muitos deles morando em aglomerações como vínculos solidários e comunitários de vida frente à ausência do Estado. O que enxergamos são bairros de massas de trabalhadores desempregados pelos processos de adaptação da indústria à tecnologia 4.0, assumindo trabalhos, ou bicos, ou serviços para poder pagar as contas do mês. Ainda é necessário saber onde esses operários examinaram coletivamente suas necessidades, por que só é possível uma certeza e é da incerteza do mundo do trabalho pos-Covid 19, mas com a 4ª Revolução Industrial em curso.

Ainda sobre esta nova revolução industrial e antes do surgimento do Coronavírus, o mundo já previa a perda alarmante de postos de trabalho, de fato a concepção da renda básica emergencial pautada pela emergência da pandemia; já tinha aparecido com o nome de renda básica universal, como mecanismo para reduzir o impacto da 4ª Revolução Industrial. A comunidade internacional já estava pensando no desemprego desde o ponto de vista de crise humanitária, e a necessidade de que os Estados agissem com maior determinação. A terrível possibilidade da omissão do Estado frente a um contexto no qual temos uma pandemia e uma revolução industrial, pode impor uma conjunção de crise humanitária com uma crise sanitária.

Este tema está penosamente em aberto, um capítulo importante da história se está escrevendo agora. No Brasil, dia após dia aumenta o número de contagiados, de mortes, de desempregados, de desesperados. A participação dos trabalhadores e trabalhadoras na escrita de este momento da história deve ser feito com a caneta da indignação. Da indignação frente à realidade de ser a classe trabalhadora que pagará a conta de uma pandemia, pois se bem neste barco estamos todos, cada um ocupa um lugar bem específico nele, e os coletes salva-vidas não são insuficientes.

EQUIPE ESCOLA SINDICAL SUL
CENTRAL UNICA DOS TRABALHADORES
2020